Sobre biquínis e aceitação

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Passei o final do ano numa ilha. Passava o dia de biquíni. Acabei tirando várias fotos assim. Depois fiquei meio constrangida de colocar essa fotos nas redes sociais. No fim, coloquei uma bem grande como capa do facebook. Esse fato e mais alguns me fizeram refletir bastante.

Meu irmão foi morar em outro estado tem um ano. Ele veio pra cá esse mês. Quando o vigia do condomínio o viu, veio comentar comigo “Seu irmão tá aí? Ele parece que gostou do sul, né? Tá mais pesado…” Na hora eu respondi “Não sei, eu não fico pesando ele” mas foi pouco. Devia ter respondido: “Não sei, não é da minha conta”. Meu irmão é gordo. Mas o peso dele não é da minha conta. Menos ainda da conta do vigia. Não é direito de nenhum de nós comentar sobre o corpo dele.

Mas se você é gordo as pessoas acham que isso dá direito a elas de fazer comentários sobre o seu corpo, sua vida, sua saúde… “Mas isso não é saudável…” Você olhou meus exames?

Conversando com o meu irmão sobre peso, emagrecimento e cirurgia que eu assumi pela primeira vez. O maior motivo para eu ter feito a cirurgia foi preconceito das pessoas. Eu não tinha problemas de saúde, sempre fiz muito exercício, me sentia bem com o meu corpo.

Minha vida está melhor, está. Mas o que mudou não fui eu. Foram os outros. Agora se eu vou em um médio eu não escuto que eu tenho é que parar de comer pizza ( Sim, um médico já me falou isso. ). Quando eu vou em um médico agora ele realmente procura saber qual é o meu problema. Se eu entro em uma loja de roupa, tem o meu número.

Mas daí a gente emagrece e acha que tudo vai se resolver. Não vai. Porque se quando você é homem gordo as pessoas acham que podem dar opinião sobre o seu corpo, quando você é mulher não importa o seu peso. As pessoas vão comentar. Da maneira mais cruel que podem. Independente do quão bonita você é.

Tenho amigas lindíssimas que moram na Bahia e não vão à praia porque tem vergonha de colocar uma roupa de praia. Tenho amigas que não tiram o sutiã na frente do namorado.

Então… meu conselho hoje pra quem quer emagrecer com ou sem cirurgia é: Você quer? Vai se sentir mais confortável ou mais saudável com isso? Então faça. Mas saiba que não tem nada de errado em ser gordo, a culpa não é sua e as pessoas vão continuar falando merda. Independente do que você faça.

A parte boa disso tudo é que você, provavelmente, não deve nada pra essas pessoas. Então a gente pode deixar de ouvir, pode ignorar e pode inclusive falar “Não é da sua conta”.

Quanto a mim, Eu gostaria de perder uns 7kg de gordura e  ganhar uns 5kg de músculo. Estou caminhando nesse sentido, talvez eu alcance isso em algum momento no futuro. Mas certamente não vou esperar isso pra ser feliz. Vou por meu biquíni e vou pra praia. E se lá eu quiser comer uma moqueca, um picolé ou um milkshake, vou comer. Se você se sente desconfortável com  as minhas estrias, me desculpe. Mas não dá. Já é difícil cuidar da minha vida, imagine se eu for cuidar e levar em conta a opinião de todas as 7bilhões de pessoas desse planeta?

Faço um exercício também pra não cuidar da vida dos outros. Agora que eu passo menos tempo falando pro meu irmão que ele tá gordo eu tenho mais tempo pra conversar sobre a vida nova dele. Quando eu fofoco menos com as minhas amigas tenho mais tempo para falar sobre os meus sentimentos. Quando deixo de imaginar o que as pessoas tão pensando, tenho mais tempo pra nadar com o meu namorado, que inclusive, adora os meus biquínis.

Minha filosofia sobre a aceitação das outras pessoas é: Fodam-se as outras pessoas.

Sobre o medo

Acordei com um poema de Drummond na cabeça.

 Congresso internacional do medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Fiquei refletindo sobre o medo. É ele que paralisa a gente. A gente se deixa paralisar pelo medo e pela mágoa. “Me magoei”, “Foi difícil”, “Se eu não conseguir?”, “Se eu falhar de novo?”, “Se conseguir e ainda assim não ficar satisfeita?”, “Agora não”, “Depois”, “Quando eu estiver pronto”, “Se me pedissem desculpas”, “Se ele tomasse a atitude”, “Se eu tivesse dinheiro”…  Assim a gente vai construindo uma muralha com os erros dos outros, nossas mágoas e as adversidades da vida. Mas essa muralha que deveria nos proteger da vida também nos afasta dela. Assim a gente vai abdicando de viver. Ter medo é ser humano. Mas se deixar paralisar por isso é opção.

Eu não quero mais. Ando preferindo cair do que não sair do meu lugar.

Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer

Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão

And if I fly, or if I fall
Least I can say I gave it all
And if I fly, or if I fall
I’m on my way, I’m on my way

A imagem no espelho

Depois de quase 3 meses eu estou finalmente me sentindo mais magra. Ontem  na hora do banho eu olhei no espelho do banheiro e achei  a minha cintura mais fina. Mais lisa. Menos pneus…  Olho o meu braço e acho mais fino. To começando a acreditar que ganhei massa muscular desde que comecei a academia. Porque esse mês eu perdi pouco peso na balança mas vi bastante diferença no espelho. Não sei… ainda é cedo pra saber. Mas o ponto é que estou começando a ficar satisfeita com as mudanças.

Vida que segue

Já se passaram dois meses desde a cirurgia e a minha vida voltou ao normal. Não vejo diferença nem mudança de vida.

Nunca passei mal, não sinto nada relacionado a cirurgia. Já reintroduzi quase tudo que eu costumava comer. Eu não tomo refrigerante, não como frituras e continuo sem glúten e sem lactose. Mas… eu já fazia essas coisas antes. Nunca tomei refrigerante e nunca fui de fritura. Inclusive tem quase 1 ano que óleo não entra aqui em casa. Então pra mim não faz diferença. Já belisquei uns doces, fiquei bem. Não como doce todo dia nem mais que uma colherzinha quando acontece, mas se alguém me oferece e estou com muita vontade eu como. Continuo com as vitaminas e proteína mas também já fazia isso antes.

Emagreci um pouco mas ainda dentro do que eu já tinha perdido antes com outro tratamento. Não comprei nenhuma roupa. Só voltei a usar algumas que estavam guardadas a algum tempo.

Resumindo, até o presente momento, não mudou a minha vida. Só como menos. Isso tem o seu lado positivo e o seu lado negativo. Positivo porque não me sinto doente nem restringida de forma alguma. Negativo porque eu ainda não me vejo numa nova vida, magra e saudável. Talvez quando eu emagrecer mais… Talvez quando eu chegar em um peso menor que 85kg ( menor peso que eu tive na minha vida adulta) isso mude.

Resultados, números e culpa

Eu esperava estar perdendo peso muito mais rápido. Eu planejava ter perdido até agora uns 15kg ou 16kg. Só perdi 13kg. Agora que eu fui escrever e colocar em palavras me pareceu meio besta. Não é nem 15% a menos do que eu esperava. Olha… Só de escrever isso aqui já me ajudou. Hahahahahah de verdade.

Mas… voltando a questão… Eu tento racionalizar que fui eu que coloquei essas metas.  Médico e nutricionistas não me falaram nada. Eu que resolvi que queria esses números. E são números, né? É uma representação bem ruim da realidade. Existem tantos fatores envolvidos. Existe a questão da porcentagem de massa magra e gordura que eu estou perdendo. Perder 13kg de pura gordura é muito melhor do que perder 15kg de gordura+músculo. O fato de que 13kg já é 30% da minha meta de perda de peso pra toda a cirurgia. O detalhe de que a minha menstruação veio hoje e eu posso ter retido líquidos na tpm, talvez eu elimine meio ou um quilo de líquido nos próximos dias. Esqueço que emagrecer sempre foi difícil pra mim, eu nunca batia as metas que outras pessoas batiam estando na mesma dieta. Meu metabolismo é lento e luta com unhas e dentes contra a perda de gordura. Existe tudo isso. Eu sou uma mulher madura, racional, que compreende todos esses fatores e que daria o conselho maravilho de relaxar para qualquer amiga que viesse me falar essas coisas. Mas eu cresci ouvindo que eu era gorda porque não tentava o suficiente e que a culpa das minhas metas não serem batidas era minha. Eu sou a errada. Eu não estou fazendo o suficiente. Eu não estou seguindo o programa como deveria. Certamente estou roubando. Quando eu digo que estou fazendo certo, estou mentindo.

Todos esses discursos ouvidos repetidas vezes desde a infância ficaram na minha cabeça e estão dando eco. Então começo a me sentir culpada. Hoje eu saí com meus pais e comi um espetinho de frango. Me senti cheia. Não consigo parar de pensar que aquilo foi demais. Que eu não deveria ter comido o espetinho inteiro. Que ele pode ter sido feito com óleo. E que a minha imprudência em comer aquele espetinho de frango é a explicação para os 2kg que faltam pra minha meta. A culpa foi minha, quando entre uma refeição e outra eu comi um punhado de uvas passas. A culpa foi minha quando eu comi peixe com legumes no restaurante, quando obviamente eu deveria ter comido em casa onde eu posso controlar a maneira que é preparado. Esses 2kg são um fracasso retumbante e a culpa é minha.

Emagrecer do jeito certo

Tai uma frase repetida a exaustão. “Eu emagreci/vou emagrecer do jeito certo”

Mas o que é “o jeito certo”? Geralmente isso vem acompanhado de um preconceito com a cirurgia bariátrica. O jeito certo é sem cirurgia e sem remédios. Ok. Realmente, se você conseguir emagrecer e manter o seu peso só com exercícios e dieta é bem melhor. Mas essas mesmas pessoas que acham errado cirurgia bariátrica acham super normal abdominoplastia, mamoplastia, lifting, lipoaspiração, etc, etc… OPA. Não era contra cirurgia? Mas, claro. A que eu não quero fazer é errado. A que eu quero fazer é super certo, normal e corriqueiro. Plastica também tem anestesia geral e riscos. Não to dizendo que sou contra. Acho que tem mais é que fazer sim.  Mas vamos ser coerentes, né?

A cada dia que passa eu percebo que tomei a decisão certa. Desde que eu resolvi que ia emagrecer mesmo ( Vai fazer 3 anos ) eu comecei a ler sobre o assunto, assistir programas, prestar atenção nas pessoas… E eu vi que não é fácil. Existem uma infinidade de fatores envolvidos. Não só alguns deles são difíceis de ser controlados como alguns são desconhecidos ainda. Não é fácil perder e é extremamente difícil manter. Quanta gente não emagrece e depois volta para o peso que tinha? São os costumes, o ambiente, a rotina… o próprio corpo luta para voltar ao maior peso. Vejo gente que é só 5kg ou 10kg acima do peso ideal que não consegue se manter no peso ideal. Imagina quem tá 40kg, 50kg ou mesmo 100kg acima do peso?

Existem vários programas sobre perda de peso. Eles pegam super obesos e mostram que é possível se perder 100kg com dieta e exercício. Mas quantos desses mantiveram o peso alguns anos depois do programa acabar?

Se a gente tem hoje acesso à tecnologias que pode nos ajudar a perder e a manter o peso, porque não se utilizar delas? Porque eu vou passar anos sofrendo se eu posso ter uma ajuda? Primeiro a gente tenta sozinho, se não conseguir busca ajuda. Não tem nada de errado nisso. Isso serve pra tudo. De perda de peso a problemas como depressão ou drogas. Eu não vou tomar um anti-depressivo só porque eu to triste. Mas eu conheço pessoas que poderiam se beneficiar muito com um tratamento desses. Assim como eu me beneficiei com a cirurgia bariátrica. Já vi gente envolvida com drogas morrer porque a pessoa e os que estavam ao redor tinham um ego grande demais pra pedir ajuda.

Consegue lidar com o problema sozinho? Ótimo. Não consegue? Pede ajuda, tenta de novo. Ainda não conseguiu com um auxílio pequeno? Pede um grande. O jeito certo é o jeito que funciona pra gente e faz a gente feliz. O certo na vida é ser feliz sem atrapalhar ninguém e fim.